Produção escrita
A história da rapariga cega
As aulas tinham terminado. Agora era tempo de aproveitar as férias ao máximo.
Mas, quando uma pessoa está feliz algo acontece que nos muda o nosso estado de espírito.
Eram nove horas da noite. O meu tio Alberto telefonou-me a dizer que a minha tia Júlia estava doente e queria que eu fosse lá.
Sem mais demoras, vou a correr para a estação de comboios, na expectativa de ter um que me levasse, naquele instante, até ao Porto. E tive sorte, pois dali a dez minutos chegaria um comboio com esse destino.
Entretanto, o comboio chega. Entro e sento-me num lugar perto da janela.
Logo depois de me sentar, uma rapariga cega pergunta-me se se podia sentar à minha beira.
De imediato disse sem exitar, que podia.
Assim nos conhecemos e parece que ficámos logo amigas uma da outra.
- Olá, eu sou a Sara. – disse a rapariga cega, sorrindo.
- Olá, eu chamo-me Rita.
- Pareces ser uma pessoa muito simpática e amigável. Sabes, apesar de eu não poder ver, tem um outro sentido que me permite conhecer a maneira de ser das pessoas. – declarou estas palavras a jovem adolescente cega.
- Mas deve ser difícil viver assim, sem ver o que te rodeia!
E acrescentei:
- Já nascentes assim sem ver ou houve alguma coisa que te levou a perderes a visão? Desculpa estar a falar nisso, mas como deves imaginar também é complicado para mim ver-te assim.
- Não, não tens nada que pedir desculpa. Eu sei que as pessoas normais não têm consciência de como é ser diferente. Mas respondendo à tua pergunta, eu não nasci assim. É uma longa história. Uma história dolorosa e penosa que nunca mais poderei esquecer.
- Se quiseres contar, estás à vontade, mas se te sentires melhor não estar a falar nisso nem sequer toques no assunto. – disse para a tranquilizar.
- Vejo que tu queres saber e eu a contar-te-ei, porque me inspiras ser uma pessoa de confiança.
E começou a narra a história que levou à sua cegueira:
- Foi à dez anos atrás. Meu pai divorciou-se da minha mãe, não sei porquê e, também, nunca nenhum deles me explicou o motivo da sua separação. Acontece que eu fiquei com o meu pai que, entretanto, arranjou outra mulher, uma mulher maldosa, de coração de pedra e que, desde do início, nunca gostou de mim.
Neste momento, por entre a janela do comboio podia ver os campos verdejantes, os cursos de água,… No céu as aves aproveitavam o sol, voando de um lado para o outro e fazendo acrobacias.
E Sara, enquanto eu via isto pela janela, lá ia contando a sua história:
- Para veres que isso é mesmo verdade prova disso é o facto de ter ficado cega.
- O quê? A companheira do teu pai foi a culpada de tu hoje seres assim!? - fiquei eu estupefacta ao ela dizer tal coisa.
- Sim foi ela mesma. Um dia estava eu no pátio de casa quando ela me empurrou pelas escadas abaixo. Depois de várias operações e de ter estado em coma o resultado está à vista.
- Que história!!! E não aconteceu nada a essa louca.
- Não. Além de mais, ninguém acredita que ela era capaz de fazer uma coisa dessas…
Agora via-se pela janela casas, prédios e fábricas enormes. Devíamos estar a chegar ao Porto.
De repente, o motorista começou a avisar que o comboio estava mesmo a chegar à estação.
Proferi, então, eu:
- A nossa viagem está a chegar ao fim, mas quero que saibas que gostei muito de te ter conhecido e espero que um dia seja feita justiça. O importante é ter esperança e não desistir. Gostaria de falar mais contigo, mas tenho de ir visitar a minha tia que está doente.
- Podes crer que também gostei muito de te ter conhecido.
A viagem tinha chegado ao fim. Despedimo-nos e cada uma seguiu o seu caminho.