Sunday, March 22, 2009

Livro: Contos Maravilhosos

Autor: Hermann Hesse

Editora: Difel Difusão Editorial, S.A.

 

 

O Anão

 

         Margherita Cadorin, filha do nobre Battista Cadorin, era a mais bonita de entre as mais belas damas de Veneza. Em toda a cidade seriam poucas as donzelas nobres aquelas que nunca tinham tido ciúmes dela.

         Margherita Cadorin era loira, alta e esbelta. Os seus cabelos acariciavam o ar e os seus pés afagavam o chão.

         A esta beldade não falta a riqueza e o fausto no seu palácio, nem tão pouco faltava a criadagem ou as gôndolas e remeiros.

         Tal luxo e requinte também existiam igualmente noutras casas e, às vezes, em maior abundância. Nesse tempo, Veneza era muito rica.

         Todavia, o que Margherita possuía que despertava a inveja de muitos, era um anão chamado Filippo, de porte pequeno e que possuía duas bossas: um homem fabuloso.

         Filippo era natural do Chipre e, quando D. Vittoria Battista o trouxe para sua casa, apenas sabia duas línguas: grego e siríaco.

         Agora, porém, ele sabia falar bem veneziano.

         O aspecto do anão era um pouco ridículo, porém, como andava vestido de sedas e brocados, parecia um príncipe.



         Quanto ao seu espírito e seus dotes nem de longe era comparável a outros anões que pudessem existir noutras cortes ou cidades. Além disso, era muito inteligente e fiel à sua senhora. Não se limitava a falar, simplesmente, três línguas e era muito culto em histórias, máximas e invenções.

Nos dias de sol, Margherita instalava-se no terraço de casa para aloirar os seus cabelos, e ia sempre acompanhada de ambas as camareiras, do seu papagaio e do anão Filippo. E, por fim, quando o pássaro adormecia e as servas conversavam indolentemente, acabando por se calarem, era a vez de Filippo começar a contar uma história. E que imaginação e jeito ele tinha para as contar!

         Acreditava-se que Filippo conseguia falar com seres animais e que era infalível na previsão de trovoada e tempestades.

         Este anão dedicava uma amizade especial, para além dos seus livros, a um cãozito preto que sofrera um desastre e ficara com uma perna torta. Este cãozito chamava-se Filippino, nome que Filippo lhe atribuiu, surgido do diminutivo carinhoso de Fino. Mas, esta amizade não era uma amizade qualquer!

         Margherita, perante os olhares de numerosos homens distintos, ricos e de belo porte, que guardavam a sua imagem no coração, ela, por seu lado, mantinha-se altiva e fria como se não existissem homens à face da Terra. Na verdade, ela não só fora educada com severidade até à morte da sua mãe, como já possuía um espírito avesso ao amor. E um dia quando dois pretendentes pediram a sua mão, forçou o pai a recusar os dois.

         Ora, na ocasião de uma festa nos jardins de Muraneser, Margherita ficou apaixonada por um cavaleiro e homem do mar, acabado de chegar das Terras – do – Levante. Chamava-se Baldassare Morosini e era parecido tanto em riqueza como em estatura com Margherita. Além disso, também o seu coração aumentou o ritmo cardíaco ao ver a mais bela das donzelas de Veneza.

         Morosini, mal alcançou o conhecimento do nome da mulher por quem se tinha apaixonado, tomou providências para ser apresentado tanto ao pai dela como a ela própria.

         Baldassare é avisado que Margherita Cadorin não é uma mulher fácil e que ia estar sujeito a mais uma recusa como os outros dois pretendentes.

         O pai de Margherita, a pedido de Baldassare, fala com a sua filha, que mesmo estando apaixonada, se faz difícil, só que o seu coração já tinha dado o sim, mesmo antes de lhe ser posta a questão.

         O homem apaixonado, mal recebeu a resposta, apresentou uma prenda encantadora e preciosa à sua amada: deu-lhe um anel de noivado, colocando-o no dedo, e pela primeira deu-lhe um beijo, na sua boca altiva.

         Baldassare, por educação, era arrogante e pouco habituado a ter consideração por alguém. Era estranho como desde o princípio algumas coisas não lhe agradavam em redor da sua noiva, principalmente, o papagaio, o cãozito Fino e o anão Filippo. Desta forma, mal os via, irritava-se de imediato e procurava de todas as formas maltratá-los ou afastá-los da sua dona.

         Pobres dos animais, pouco tempo mais duraram. O papagaio morreu esmagado e o cãozito morreu afogado. Só restava Filippo, para quem foi um grande choque e uma enorme tristeza a morte do cãozito Fino, afinal era o seu grande amigo.

         Filippo nunca mais esqueceu o que Morosini fez e, por isso, decidiu vingar-se.

         Numa tarde, Margherita e o seu noivo, acompanhados de Filippo, foram passear de gôndola e, é nesta altura que o anão acerta contas com o carrasco.

         Baldassare queria beber, então Filippo, ordenado pela sua senhora, vai buscar o vinho.

         É nessa altura, que o anão adiciona à bebida veneno, o qual provocou a morte de Baldassare e a sua.

         O noivo de Margherita estava desconfiado, e o anão teve de beber também do vinho envenenado, pois de outra forma ele não beberia.

         Desta forma, morreram os dois, mortes que abalaram Veneza e que provocaram a loucura de Margherita.        

 

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Texto descritivo

Palácio do rei

 

         Foi à muitos anos atrás. Meu pai era o rei de Espanha e um dos seus grandes amigos era o rei D.João V, rei de Portugal, homem que possuía grande requinte e luxo.

         Certa altura, este convidou meu pai a ir ao seu reino, pois ia dar uma grande festa e, por isso, gostava imenso que um dos seus melhores amigos não faltasse.

         Preparamos tudo e partimos num belíssimo coche, puxado por dois cavalos brancos.

         Meu pai tinha aceite este convite não pela festa em si, pois todas as festas são sempre iguais, mas sim porque eu nunca tinha ido a Portugal e ele achou por bem aproveitar esta oportunidade para eu o ficar a conhecer, afinal era mesmo o país vizinho.

         Enquanto não chegamos a Portugal, os meus pais entreolhavam-se, afinal não havia nada para dizer sobre Espanha, pois desde muito cedo eles tinham-me contado tudo sobre ela.

         Mas, mal entramos na fronteira do país vizinho, tudo mudou. O silêncio que tinha sido até ali quebrou-se. Começaram-me a falar sobre os reis mais importantes que já tinham passado pela coroa portuguesa, os grandes feitos dos portugueses, as paisagens deslumbrantes que aí eu poderia ver e muitas outras coisas.

         Depois de uma viagem longa, chegamos finalmente ao palácio do amigo do meu pai.

         Quando sai de dentro do coche nem queria acreditar naquilo que eu estava a ver surgir à frente dos meus olhos. Era uma construção enorme que se fazia estender ao longo da calçada. Era feita em pedra e em todo o seu correr existiam inúmeras janelas.

         Meu pai vendo-me maravilhada com tal edifício, divulgou-me o seu nome. Chamava-se Convento e Palácio de Mafra.

         Não tardou, em aparecer o seu amigo, o rei D. João V.

         As suas vestes eram de seda, com bordados que pareciam ser em ouro, uma peruca que lhe cobria toda a cabeça e testa e que se fazia estender até meio das costas, os sapatos que calçava eram brilhantes, como se tivessem sido engraxados pouco tempo antes, …enfim, um homem que parecia ser proprietário de uma riqueza incalculável.

         Pensava eu que já tinha visto tudo, mas afinal ainda não tinha visto nada.

         D. João V cumprimentou-nos e vendo que era a primeira vez que eu estava ali, fez questão que visitássemos todo aquele grande edifício, pois ainda mal tinha começado o dia e o banquete só iria ser ao início da noite.

         Começámos pela sala onde iria decorrer a tal festa. Era gigante! Acho que lá dentro cabia o nosso palácio.

         Tinha um candeeiro igualmente grande no centro da sala, que quando acesso devia dar mais luz o reflexo do ouro do que propriamente a luz das velas.



         Uma dezena de criados já estava a preparar tudo. Nas mesas já estavam colocadas toalhas em seda pura vinda do estrangeiro, pelo menos foi o que D. João V disse. Uma meia dúzia de castiçais em ouro começavam a decorar já todo aquele cenário.

         Noutras divisões do palácio igualmente morava o luxo e o requinte: cortinas cor de púrpura se faziam estar perto das janelas, móveis de madeira exótica com linhas decorativas em ouro…

         Nos tectos, pinturas espectaculares decoravam e davam mais vida as divisões do palácio.

         A hora do banquete chegou. Os cavalheiros e as senhoras pareciam que tinham escolhido as suas melhores vestimentas ou as tinham comprado de propósito para aquela ocasião.

         A sala a pouco e pouco ia ficando cheia de gente.

         Mas, o melhor estava para vir, aquilo por que todos ansiavam, o jantar.

         Grandes travessas em prata ou em porcelana, com feitios lindíssimos chegavam com os mais diversos tipos de comida. A juntar a isto, muito vinho. Toda a gente parecia estar deliciada.

         Para animar ainda mais o serão, uma orquestra tocava.

         Entre muita comida, muita bebida, muita música, a festa chegou ao fim, e já a noite ia a meio.

         Os criados, tal como nós estavam exaustos. D. João V ordenou, por isso, que se fossem deitar e que arrumassem tudo no dia seguinte.

         Nessa noite e nos dois dias que se seguiram ficamos no palácio, tudo porque D. João tinha pedido a meu pai. Nesse tempo aproveitamos para ir ao convento e rezar um pouco.

         Passado o tempo de visita, despedimo-nos de D. João V e partimos a caminho de Espanha, em direcção ao nosso castelo.  

             

 

Posted by *** Belinh@*** at 20:49:34 | Permalink | No Comments »

Brincadeiras de criança

 

         Fui crescendo como quase todas as criaturas bem alimentadas e, depois, brincando no jardim em frente à casa onde morávamos.

         Lembro com saudade os tempos em que jogava às escondidas e me escondia atrás de uma árvore centenária.

         Adorava jogar às caçadinhas, correndo por entre as árvores, flores, arbustos… era muito divertido.

         Gostava, igualmente, de jogar uma boa futebolada em cima da relva verdejante, num campo improvisado, onde as balizas eram limitadas pelos troncos das árvores.

         Em tempo de Primavera, gostava também muito de ir para o canteiro, ver as borboletas pousarem nas flores e, depois, quando elas levantavam voo eu ia atrás delas. Porém nunca consegui apanhar nenhuma!

         No Verão, adorava ir para a piscina, que ficava mesmo em frente à casa onde morávamos, dar um bom mergulho e ficava ali a refrescar o corpo.

         E, quando o sol se punha era tempo de ir tomar um bom banho e petiscar qualquer coisa.

         Que desilusão, o dia tinha chegado ao fim!

         Aproveitava, então, para jogar computador. Mas não era a mesma coisa! Não se podia apreciar a brisa que corre, nem o sol, nem a sombra de uma árvore, nem…não há nada como as brincadeiras ao ar livre, porque eram essas que me faziam sentir criança.

         Hoje, já não moro na mesma casa, isto é, na casa dos meus pais.       Tenho agora uma casa minha, onde moro com o meu marido e o meu filho. E, agora vejo o meu filho brincar, como eu brincava nos meus tempos de infância e recordo-me do tempo em que ser feliz era tão natural como o ar que respirava. Não quer dizer que não sou feliz, mas este sentimento é vivido de maneira diferente quando somos crianças.  

Posted by *** Belinh@*** at 20:48:48 | Permalink | No Comments »




A chegada à Índia

 

         Depois de passados muitos obstáculos, imensas dificuldades e perigos, chega finalmente a notícia porque todos ansiávamos.

         Acabava de amanhecer, quando o piloto de Melinde faz sobressaltar toda a tripulação que ia a bordo, dizendo que estava a avistar terra.

         Logo, todos fomos para as zonas mais altas do barco para ver se confirmávamos o que o marinheiro estava a dizer.

         Só, passado algum tempo, depois de andarmos sempre na mesma direcção é que aos nossos olhos começou a surgir terra.

         Para nos confirmar que aquilo que a nossa vista avistava era mesmo terra, uma ave pousou em cima da popa do navio. E muitas mais surgiram no céu.

         Todos ficámos radiantes e incrédulos com o que estava a acontecer. O nosso desejo estava a um passo de se realizar.

         Vasco da Gama quase chorou de comoção por ter conseguido tamanha proeza! Mas não lhe era possível chorar e também não ia ser bom!

         Vasco da gama e toda a tripulação estava demasiado desidratada. Para além disso, se por acaso chorasse e as lágrimas lhe passassem pelo rosto, as suas feridas iam ressentir-se, devido ao sal do mar que existia em todo o rosto e por todas as partes do corpo que não estivessem cobertas.

         De seguida, ele ordenou que começássemos a preparar os batéis, pois o desembarque estava prestes a acontecer.

         Desta forma, dois marinheiros encarregaram-se de pegar no baú, que estava no convés. Esse continha produtos que, mais tarde se conseguíssemos, iriam servir para fazer trocas com os indígenas.

         Entretanto, nós, os restantes marinheiros, começávamos a executar a ordem de Vasco.

         Estando as naus a algumas milhas da costa indiana, parte da tripulação, em que eu me incluía, partiu em batéis e a outra parte da tripulação, não desembarcou.

         Já nos batéis e remando em direcção à terra ambicionada, aproveitávamos para apreciar a paisagem que se ia avistando, cada vez melhor.

         Gama, parecia estar pensativo, pois podíamos ser recebidos como inimigos e, desta forma, não conseguiríamos provar àquela multidão de gente que ficara em Belém, que tínhamos cumprido a nossa missão, pois não conseguiríamos levar nada que provasse a concretização de tamanho feito.

         Porém, esse seu ar pensativo desapareceu, quando chegaram a terra.

         Uma grande multidão de gente já nos esperava, depois de nos terem avistado ao longe. Mas, quando saímos das pequenas embarcações, o espanto daquela gente que nos rodeava cresceu. Tudo, porque o aspecto que apresentávamos era de verdadeiros medíocres. As nossas roupas estava rotas e sujas, a barba e o cabelo já deviam atingir dois palmos de comprimento, a pele dos braços e rosto escurecera muito desde que abandonamos a cidade de Lisboa.

         Contudo, um homem indígena adiantou-se em relação aos demais indígenas que nos olhavam, e começou a falar com Vasco da Gama.

         Vasco como era homem culto, sabia várias línguas, das quais fazia parte a língua que se falava naquela região, pois ele entendia perfeitamente o que o homem dizia. Aproveitou ainda para contar um pouco da aventura que tínhamos vivido e qual a razão de estarmos ali.

         Então, o homem impressionado decidiu levar-nos até ao palácio do governador.

         Aí, fomos bem recebidos, podendo mesmo matar a fome e a sede que nos atormentava, até então.

         Mais tarde, com os produtos que se faziam transportar dentro do baú, que dois marinheiros trouxeram sempre à sua guarda desde o desembarque, fizemos diversas trocas com os comerciantes daquela região.  

Posted by *** Belinh@*** at 20:48:17 | Permalink | No Comments »