Livro: Contos Maravilhosos
Autor: Hermann Hesse
Editora: Difel Difusão Editorial, S.A.
O Anão
Margherita Cadorin, filha do nobre Battista Cadorin, era a mais bonita de entre as mais belas damas de Veneza. Em toda a cidade seriam poucas as donzelas nobres aquelas que nunca tinham tido ciúmes dela.
Margherita Cadorin era loira, alta e esbelta. Os seus cabelos acariciavam o ar e os seus pés afagavam o chão.
A esta beldade não falta a riqueza e o fausto no seu palácio, nem tão pouco faltava a criadagem ou as gôndolas e remeiros.
Tal luxo e requinte também existiam igualmente noutras casas e, às vezes, em maior abundância. Nesse tempo, Veneza era muito rica.
Todavia, o que Margherita possuía que despertava a inveja de muitos, era um anão chamado Filippo, de porte pequeno e que possuía duas bossas: um homem fabuloso.
Filippo era natural do Chipre e, quando D. Vittoria Battista o trouxe para sua casa, apenas sabia duas línguas: grego e siríaco.
Agora, porém, ele sabia falar bem veneziano.
O aspecto do anão era um pouco ridículo, porém, como andava vestido de sedas e brocados, parecia um príncipe.
Quanto ao seu espírito e seus dotes nem de longe era comparável a outros anões que pudessem existir noutras cortes ou cidades. Além disso, era muito inteligente e fiel à sua senhora. Não se limitava a falar, simplesmente, três línguas e era muito culto em histórias, máximas e invenções.
Nos dias de sol, Margherita instalava-se no terraço de casa para aloirar os seus cabelos, e ia sempre acompanhada de ambas as camareiras, do seu papagaio e do anão Filippo. E, por fim, quando o pássaro adormecia e as servas conversavam indolentemente, acabando por se calarem, era a vez de Filippo começar a contar uma história. E que imaginação e jeito ele tinha para as contar!
Acreditava-se que Filippo conseguia falar com seres animais e que era infalível na previsão de trovoada e tempestades.
Este anão dedicava uma amizade especial, para além dos seus livros, a um cãozito preto que sofrera um desastre e ficara com uma perna torta. Este cãozito chamava-se Filippino, nome que Filippo lhe atribuiu, surgido do diminutivo carinhoso de Fino. Mas, esta amizade não era uma amizade qualquer!
Margherita, perante os olhares de numerosos homens distintos, ricos e de belo porte, que guardavam a sua imagem no coração, ela, por seu lado, mantinha-se altiva e fria como se não existissem homens à face da Terra. Na verdade, ela não só fora educada com severidade até à morte da sua mãe, como já possuía um espírito avesso ao amor. E um dia quando dois pretendentes pediram a sua mão, forçou o pai a recusar os dois.
Ora, na ocasião de uma festa nos jardins de Muraneser, Margherita ficou apaixonada por um cavaleiro e homem do mar, acabado de chegar das Terras – do – Levante. Chamava-se Baldassare Morosini e era parecido tanto em riqueza como em estatura com Margherita. Além disso, também o seu coração aumentou o ritmo cardíaco ao ver a mais bela das donzelas de Veneza.
Morosini, mal alcançou o conhecimento do nome da mulher por quem se tinha apaixonado, tomou providências para ser apresentado tanto ao pai dela como a ela própria.
Baldassare é avisado que Margherita Cadorin não é uma mulher fácil e que ia estar sujeito a mais uma recusa como os outros dois pretendentes.
O pai de Margherita, a pedido de Baldassare, fala com a sua filha, que mesmo estando apaixonada, se faz difícil, só que o seu coração já tinha dado o sim, mesmo antes de lhe ser posta a questão.
O homem apaixonado, mal recebeu a resposta, apresentou uma prenda encantadora e preciosa à sua amada: deu-lhe um anel de noivado, colocando-o no dedo, e pela primeira deu-lhe um beijo, na sua boca altiva.
Baldassare, por educação, era arrogante e pouco habituado a ter consideração por alguém. Era estranho como desde o princípio algumas coisas não lhe agradavam em redor da sua noiva, principalmente, o papagaio, o cãozito Fino e o anão Filippo. Desta forma, mal os via, irritava-se de imediato e procurava de todas as formas maltratá-los ou afastá-los da sua dona.
Pobres dos animais, pouco tempo mais duraram. O papagaio morreu esmagado e o cãozito morreu afogado. Só restava Filippo, para quem foi um grande choque e uma enorme tristeza a morte do cãozito Fino, afinal era o seu grande amigo.
Filippo nunca mais esqueceu o que Morosini fez e, por isso, decidiu vingar-se.
Numa tarde, Margherita e o seu noivo, acompanhados de Filippo, foram passear de gôndola e, é nesta altura que o anão acerta contas com o carrasco.
Baldassare queria beber, então Filippo, ordenado pela sua senhora, vai buscar o vinho.
É nessa altura, que o anão adiciona à bebida veneno, o qual provocou a morte de Baldassare e a sua.
O noivo de Margherita estava desconfiado, e o anão teve de beber também do vinho envenenado, pois de outra forma ele não beberia.
Desta forma, morreram os dois, mortes que abalaram Veneza e que provocaram a loucura de Margherita.