2008/03/13

Produção escrita

A família chinesa

 

 

Não se encontra loja mais barata que a Pérola de Macau. Tem de tudo: coisas úteis e inúteis, habituais e exóticas, toscas e delicadas. Por isso, na véspera de Natal, formam-se bichas apressadas mas hesitantes nos seus dois corredores entre estantes atafulhadas.
Até ao início das férias era um casal de chineses recém-chegados que atendia os fregueses. Sabiam uma dúzia de frases em português que misturavam com gestos e sorrisos.
- Que quele? Pode vele.
Traziam as costas de um papel impresso com gatafunhos orientais e apresentavam-nas aos clientes silenciosos.
Mas em meados de Dezembro meteram o sobrinho, que anda na escola como ajudante. Na verdade é ele que orienta a loja. Magrinho, de olhos em bico, parece movido a electricidade. Recebe as pessoas à porta, condu-las até à prateleira das molduras, das velas, das porcelanas, faz sugestões, indica preços.
Este grupo de chineses é acolhedor, alegre, simpático, mas por detrás existe um passado que para eles ainda é difícil de ultrapassar e já lá vão 22 anos.
Antes de eles virem para Portugal viver, residiam na China. Porém por um motivo político houve uma série de conflitos. Desse restaram algumas centenas de mortos e de edifícios praticamente destruídos.
Quando eles embarcaram para virem para Portugal, foi difícil, como acontece sempre que há este tipo de situações. Jacke e Yemesi conseguiram fugir à morte, trazendo também o sobrinho Ayobami, que era ainda pequenito, pois os pais dele estavam bastante feridos e como iam ficar sem ninguém para cuidar dele fizeram esse pedido. Jacke vendo a sua irmã naquela estado e sem poder fazer nada para a curar, resolveu cumprir o seu pedido.
A sua viagem demorou meses pois vinha de barco e esse era um pouco lento.
Chegados a Portugal, ficaram fascinados pois os lugares que viram tinham coisas lindíssimas.
Procuraram uma estalagem para passar a noite. Nessa jantaram e ao mesmo tempo conversavam um pouco sobre onde iam no dia seguinte.
Logo ao romper da manhã, os três andaram pela cidade à procura de emprego. Por sorte conseguiram arranjar os dois trabalho no mesmo local.
Mais à frente um pouco, viram um apartamento à venda. Retiraram o número de telefone que estava marcado e ligaram com o proprietário desse.
Nos dias que se seguiram trataram da documentação do apartamento e do empréstimo que tinham de pedir ao banco para o comprar.
Os anos foram passando, as dívidas ficaram saudadas e começaram também a juntar dinheiro para o que pudesse fazer falta.
Neste ambiente, que podemos dizer que era de felicidade, pois tudo estava a correr bem, aproveitaram para falar com o sobrinho sobre os seus pais e a sua vida, já que ele não se lembrava, visto que, quando ele veio com os tios ainda não tinha idade para perceber isso.
Entretanto, o patrão deles abriu falência da loja e eles montaram um negócio por conta própria. Esse foi bastante rentável, aliás, é nesse que eles ainda hoje continuam a trabalhar.
O casal teve dois filhos, que actualmente andam na escola e Ayobami frequenta a universidade.
Apesar de se sentir feliz assim, Ayobami tem um sonho, quando acabar o curso, pensa em fazer uma viagem a terra onde nasceu e conhecer os outros membros, mas principalmente, os pais se esses tiverem sobrevivido.
Essa vai ser paga com o dinheiro que ganha, quando ajuda os tios na loja.
Cada dia que passa ele fica mais ansioso, porque já falta pouco tempo.       

 

 

Posted by borboleta at 12:43:01 | Permanent Link | Comments (0) |
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